
Não me lembro de ter conhecido outro livro que transitasse tão confortavelmente por vários gêneros (humor, suspense, romance, drama existencial, surrealismo) sem se fixar em um deles e sem se transformar numa mixórdia. A prosa de Lourenço Mutarelli engana, parece modesta, parece simplória. O leitor lê o tÃtulo, imagina porcaria; folheia o livro, vê que muitas páginas são constituÃdas de longas sequências de linhas quase em branco, com duas ou três palavras cada, parecendo algum tipo de poema moderno, e já desconfia que aquilo não presta. Depois, vê a sobrecapa com um artista global em destaque, e a expectativa cai abaixo de zero. Mas basta começar a ler para ser fisgado, arrastado para dentro de uma prosa enxuta e ao mesmo tempo barroca, que descreve um mundo que é simultaneamente surreal e de um realismo chocante. Assim é o universo do protagonista d’O Cheiro do Ralo: delirante, estapafúrdio, grotesco, mas ao mesmo tempo fala de sentimentos, aspirações, vÃcios e fraquezas que são os das pessoas comuns, que identificam na obra o retrato da vida real. Fala, principalmente, de solidão na multidão, e isso o torna realista e inteligÃvel.
Ora, o ralo é uma mandala. Um ônfalo, ligação entre o “em cima†e o “embaixoâ€, um portal para o mundo ctônico, subterrâneo (e pelo menos o ralo aqui do meu banheiro reúne três dos quatro sÃmbolos fundamentais: a cruz, o cÃrculo e o centro). Nosso herói percebe o cheiro do ralo como um chamado do mundo subterrâneo, é um miasma que vem do mundo ctônico. Primeiro resiste, mas depois cede a esse chamado, e seu mundo, absurdo já desde a primeira cena, descarrila.
Arte de Marc Quinn