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Lourenço Mutarelli, nascido em 1964, em seu primeiro emprego desenhava cenários para os gibis da Mônica. Fez uma respeitável carreira como autor no melhor momento dos quadrinhos brasileiros (”maior autor brasileiro das histórias em quadrinhos underground”, segundo a Rolling Stone), ganhando quatro prêmios HQ Mix como desenhista e outros quatro como roteirista. Escreveu sete romances, cinco peças de teatro e duas dezenas de álbuns gráficos. Dois de seus livros foram adaptados para o cinema.




LITERATURA | RESENHA
O cheiro do ralo
Cíclope, Frankenstein, um homem que é pai do pai, mas que não gosta de ninguém e luta contra a atração de um mundo subterrâneo e sombrio, cujo chamado se mistura com a respiração. A prosa aparentemente leve e sem enfeites de Mutarelli esconde um pequeno tesouro de malandragens narrativas e simbólicas. Para quem se der ao trabalho de procurar...


11 maio 2008 | comente


Não me lembro de ter conhecido outro livro que transitasse tão confortavelmente por vários gêneros (humor, suspense, romance, drama existencial, surrealismo) sem se fixar em um deles e sem se transformar numa mixórdia. A prosa de Lourenço Mutarelli engana, parece modesta, parece simplória. O leitor lê o título, imagina porcaria; folheia o livro, vê que muitas páginas são constituídas de longas sequências de linhas quase em branco, com duas ou três palavras cada, parecendo algum tipo de poema moderno, e já desconfia que aquilo não presta. Depois, vê a sobrecapa com um artista global em destaque, e a expectativa cai abaixo de zero. Mas basta começar a ler para ser fisgado, arrastado para dentro de uma prosa enxuta e ao mesmo tempo barroca, que descreve um mundo que é simultaneamente surreal e de um realismo chocante. Assim é o universo do protagonista d’O Cheiro do Ralo: delirante, estapafúrdio, grotesco, mas ao mesmo tempo fala de sentimentos, aspirações, vícios e fraquezas que são os das pessoas comuns, que identificam na obra o retrato da vida real. Fala, principalmente, de solidão na multidão, e isso o torna realista e inteligível.

Nosso herói é uma figura tocante e revoltante. É romântico e sincero, mas é cruel, cínico, detestável. Sofre e faz sofrer. Não consegue se comunicar com o outro, vive sozinho no meio de muita gente. Sobrevive da exploração das misérias alheias. Busca um pai que não tem, e resolve pateticamente construi-lo, comprando-o aos pedaços de outros miseráveis.

O protagonista do livro tem muitos problemas, mas o central é esse, o ralo defeituoso e o cheiro que exala. Sua vida se centraliza na vizinhança desse ralo, que o obceca.

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Ora, o ralo é uma mandala. Um ônfalo, ligação entre o “em cima” e o “embaixo”, um portal para o mundo ctônico, subterrâneo (e pelo menos o ralo aqui do meu banheiro reúne três dos quatro símbolos fundamentais: a cruz, o círculo e o centro). Nosso herói percebe o cheiro do ralo como um chamado do mundo subterrâneo, é um miasma que vem do mundo ctônico. Primeiro resiste, mas depois cede a esse chamado, e seu mundo, absurdo já desde a primeira cena, descarrila.

O livro oferece a possibilidade de várias cogitações baseadas nesses símbolos, a mandala, o centro, o ônfalo, o portal que liga o mundo de cima com o de baixo, as possibilidades de se abrir e fechar esse portal, o miasma ctônico e os sacrifícios purificadores, o olho do pai que tudo vê, a perna que não carrega ninguém, a presença do feminino invisível que espreita.

Os desdobramentos da história tornam-se vertiginosos a partir de certa altura. É que, de um ponto em diante, estamos tratando com um homem que tem três olhos, tem um terceiro olho, tornou-se mais que humano. Cirlot (Dicionário de Símbolos, Editora Moraes, 1984) anota que o terceiro olho é sinal de supra-humanidade, de divindade, mas aparece também na mitologia como sinal de destruição, como em algumas imagens de Xiva destruidor. É que um dos significados do três concerne a um ciclo de criação, observação e destruição. Ademais, lembra Cirlot, a multiplicidade de olhos alude à dissociação, à dissolução psíquica, que traz na raiz a idéia do demoníaco. O terceiro olho, assim, faz conexão com o ralo-mandala-portal ctônico.

Arte de Marc Quinn
Por outro lado, se o olho não é do nosso herói, mas do pai, esse pai de um olho só é cíclope, que representa, segundo o mesmo Cirlot, as forças primárias da natureza. Chevalier e Gheerbrant (Dicionário de Símbolos, Editora José Olympio, 2008) lembram outros significados mitologicamente ligados ao cíclope: força bruta, primitiva, vulcânica, regressiva, que escapa ao império do espírito, uma das representação dos ímpar, que simboliza a antiordem, o “esquerdo maldito”. Os mesmos autores, assim como Cirlot, lembram que na mitologia cristã o demônio é muitas vezes representado com um olho só, simbolizante da dominação das forças instintivas e passionais. Lembram ainda que a mitologia celta, que não tem cíclopes propriamente, tem uma galeria de personagens que representam o lado negro, titanesco, da criação, os poderes infernais, e que são caolhos ou tem um só braço, uma só perna (como o pai comprado do nosso protagonista). Os cíclopes são, na mitologia grega, manipuladores do fogo, assim como Hefesto, deus do fogo, e que é manco (o que, para Chevalier e Gheerbrant, tem a mesma simbologia do perneta dos celtas). A perna única e o olho único se ligam, na mitologia, como na obra de Mutarelli.

O advento desse olho é o ponto de ruptura da trama. E como tanto se pode interpretar esse olho como significando uma dádiva (a terceira visão) ou uma maldição (a filiação infernal), a ambiguidade do resto da trama encontra aí sua justificação.

O autor abre diversas linhas possíveis de evolução da história, e não fecha nenhuma delas. A história acaba, e acaba definitivamente, mas os mistérios continuam todos sem resposta, o que decepciona o leitor comum, e constitui um prêmio para o leitor curioso.

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Tive a infelicidade de assistir o filme de mesmo título, depois de ter lido o livro. Lamentável que um livro repleto de camadas e símbolos, suscetível de várias leituras, tenha sido filmado como uma chanchada sem graça, um quase-pornô sem erotismo, um romance sem romantismo e um drama sem emoção.

O filme é de uma banalidade atroz e ainda bem que não o vi antes de ler o livro, senão deixaria de conhecer a obra do Mutarelli.

Mais lamentável ainda é que o autor do livro, em vez de renegar o filme, tenha aparecido nele como figurante.


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