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História da Filosofia Brasileira

    F. de l. da obra: Engelmann, A. A.; Engelmann, D. A. & Corrêa, M. E. L.. História da filosofia no Brasil. Curitiba: Intersaberes, 2015 (abr. loc.: E2015h)


Sum√°rio


apresentação

Objetivo da obra
Objetivo: narrar a história das ideias que subjazem ao desenvolvimento da sociedade brasileira, em busca de saber como e porque construímos nossa história como ela se deu.

ideias vigentes ao tempo da colonização

Dependência intelectual: pensamento brasileiro está vinculado às ideias europeias (à ideia europeia do catolicismo, especialmente) desde sempre.

Pensamento em Portugal no início da colonização
Pensamento que predominava em Portugal no tempo do início da colonização brasileira era uma mistura das ideias da Idade Média (teocentrismo) com as do Renascimento (antropocentrismo). Surgiram na Europa, nesse tempo, duas correntes filosóficas e duas histórias:
    (a) uma, a da Am√©rica anglo-sax√īnica (influ√™ncia do Renascimento, antropocentrismo, Reforma religiosa, educa√ß√£o p√ļblica, ado√ß√£o do esp√≠rito do Calvinismo),

    (b) outra, a da América católica (influência medieval-católica, teocentrismo, influência do Concílio de Trento e da Contrarreforma, economia feudal sem mobilidade social nem instrução).
Concílio de Trento
Concílio de Trento (1545-1563). Finalidade: lançar a Contrarreforma em resposta ao protestantismo: (a) reorganizou a Inquisição, (b) tornou laico o ensino nas universidades (aboliu o curso de teologia), (c) criou seminários para formação de padres, (d) enclausurou os religiosos.

Causas da Reforma Protestante
Causas da Reforma Protestante: cristianismo foi religi√£o oficial do imp√©rio romano desde 476; a Europa foi crist√£ em sua quase totalidade desde ent√£o. No s√©c. XVI (a) a igreja estava afastada de suas doutrinas originais, (b) enfrentava uma crise moral; (c) o desenvolvimento das monarquias regionais permitiu aos s√ļditos, falantes da mesma l√≠ngua, se identificarem mais com o soberano local do que com a autoridade papal; (d) a burguesia se opunha √† proscri√ß√£o que a igreja fazia do ac√ļmulo de dinheiro e empr√©stimos a juros.

Características da Reforma de Lutero
Caracter√≠sticas da Reforma de Lutero: (a) cren√ßa na autonomia da raz√£o humana; (b) por isso, livre interpreta√ß√£o da b√≠blia; (c) um ‚Äúcomplexo‚ÄĚ contra a filosofia (porque fora cooptada e subordinada √† teologia), a escol√°stica, Arist√≥teles e Tom√°s de Aquino; (e) proposta de retorno aos ‚Äúcl√°ssicos‚ÄĚ; (f) proposta de salva√ß√£o pela f√© em vez de predestina√ß√£o.

Efeitos da Reforma
Efeitos da Reforma: (a) fim da hegemonia do catolicismo; (b) divis√£o da Europa entre cat√≥lica e protestante; (c) surgimento da escola p√ļblica com professores leigos pagos pelo Estado; (d) abriu caminho para o Calvinismo; (e) gerou a Contrarreforma (Conc√≠lio de Trento e funda√ß√£o da Companhia de Jesus; (f) pa√≠ses que se alinharam com a Contrarreforma passaram ao isolamento pol√≠tico, social, comercial.

característica do calvinismo
O Calvinismo (fundado em 1531 por Jo√£o Calvino) pregava a teoria da predestina√ß√£o: Deus escolheu o que cada um ser√°, independentemente do querer ou agir do sujeito. Ac√ļmulo de riquezas (assim como a vida reta e honesta, e a ascens√£o pelo trabalho) era sinal de ter sido eleito por Deus. Defendia a ideia de lucro, a vis√£o do trabalho como dignificante. Influenciou os EUA.
    m.c.: Segundo o autor, Portugal, Espanha e demais pa√≠ses que se isolaram no mundo da Contrarreforma cat√≥lica repudiavam o lucro e o ac√ļmulo de riquezas, raz√£o porque os protestantes e judeus dominaram as atividades comerciais e banc√°rias no Brasil.

filosofia no período colonial

Jesu√≠tas foram os educadores no Brasil desde 1549 at√© 1759, quando foram expulsos. Primeira escola fundada em 1551, e em 1572 os 1¬ļs cursos de filosofia e teologia. N√≥brega (que chegou em 1553) disse: ‚Äúesta terra √© nossa empresa‚ÄĚ. Sua presen√ßa corresponde ao 1¬ļ per√≠odo da ‚Äúfilosofia brasileira‚ÄĚ, chamado per√≠odo escol√°stico ou moralista (pensamento moralista ou moralismo).

divisão de períodos no pensamento colonial
Adotando as ideias do Concílio de Trento e pondo-se na contramão da Reforma, Portugal iniciou o movimento da 2ª escolástica portuguesa, divido em duas fases:
    1. ‚ÄĒ per√≠odo barroco (1500-1650), escol√°stica da Contrarreforma

    2. ‚ÄĒ per√≠odo tomista (1650-1750): volta √†s ideias filos√≥ficas r√≠gidas da escol√°stica mais Inquisi√ß√£o; influ√™ncia dos jesu√≠tas, dura at√© a expuls√£o (1750).
Contraditoriamente, o autor também divide o período colonial por outro critério:
    1. ‚ÄĒ per√≠odo escol√°stico, do descobrimento at√© 1773, data da ado√ß√£o da obra de Genovesi como livro oficial;

    2. ‚ÄĒ per√≠odo iluminista, de 1773 a 1822.
Sistema educacional dos jesuítas, características
Sistema educacional dos jesu√≠tas (tamb√©m ditos ‚Äúinacianos‚ÄĚ), com base na ‚ÄúRatio Studiorum‚ÄĚ de 1586 (ou seria 1599?):
    (a) prioridade: sustentar a pureza da f√© (lema: ‚Äúad maiorem Dei Gloriam‚ÄĚ); ensina o ‚Äúsaber da salva√ß√£o‚ÄĚ;

    (b) no cimo do saber, a teologia, subordinando todos os ramos do conhecimento;

    (c) censura a ideias ou teorias que contradigam a doutrina oficial;

    (d) ruptura com a cultura positiva;

    (e) ortodoxia, dogmatismo: não visa desenvolver capacidade crítica mas incutir no aluno uma doutrina e prepará-lo para defendê-la; sustentar a fé pela razão.

    (f) enfatiza caráter negativo da corporeidade e das tarefas terrenas, funda-se na concepção de homem como criatura divina de passagem pela Terra; quer manter a divindade do homem por meio da moral.
Contexto: a urbanização e a ascensão da burguesia (m.c.: no Brasil? Em 1600?) tornaram a sociedade mais complexa, criando gosto pela racionalidade; isso tornou necessário um trabalho de argumentação lógico racional e fez da filosofia estudo obrigatório do teólogo.

ecos e efeitos do ensino jesuíta
Efeitos do ensino jesuíta se desdobram na pedagogia tradicional, que tem uma visão essencialista do homem, isto é, homem dotado de essência universal e ideal, à qual a educação deve moldar a existência particular real de cada sujeito.

o método da Ratio Studiorum
O m√©todo da Ratio Studiorum: quatro etapas: leitura, glossa (coment√°rios), quaestio (quest√Ķes), disputatio (discuss√£o). Repeti√ß√Ķes di√°rias/semanais. Apresenta√ß√£o de disserta√ß√£o de filosofia ou teologia ao superior. Corretivo f√≠sico, quando aplicado, o era por terceiro, contratado para esse fim.

um conceito de filosofia
A latere: um conceito de filosofia: a filosofia nasce da inquieta√ß√£o causada pela percep√ß√£o dos mist√©rios ocultos no mundo e no pr√≥prio homem; √© o esfor√ßo do pensamento para (a) construir conhecimento, (b) desvelar fen√īmenos e entes; (c) visando transcend√™-los e dar-lhes sentido. O esfor√ßo que o homem vem fazendo para compreender o mundo e a si pr√≥prio e dar-lhes sentido (p.46 e 64).


o ecletismo iluminista

o am√°lgama da escol√°stica com o iluminismo
O iluminismo católico resultou do amálgama entre a escolástica medieval (que separava escola e vida e distanciava os alunos do mundo, dando-lhes conhecimentos ineficazes para a vida prática) e o iluminismo (que cria na capacidade do homem de construir o próprio destino por meio do conhecimento prático). Esse iluminismo católico, também dito ecletismo, é só a escolástica vestida com a roupagem moderna das Luzes.

contexto do ecletismo: reformas pombalinas
O ecletismo surge da ‚Äúrenova√ß√£o conservadora‚ÄĚ que o Marques de Pombal implantou em Portugal desde 1755, com atitude reformista mas n√£o revolucion√°ria, pois queria (a) salvaguardar a revela√ß√£o e a f√© caras ao portugu√™s e (b) livrar Portugal da influ√™ncia inglesa (e por isso recusava as ideias de Locke e Hume), (c) fortalecer o Estado (sem preocupa√ß√£o com as quest√Ķes da consci√™ncia e da liberdade); (d) em suma, conciliar a teoria do Estado moderno com as exig√™ncias crist√£s.

teorias e propostas de Antonio Genovesi
Pombal fez da obra do italiano Genovesi (†1769) livro oficial. Caracter√≠sticas e ideias centrais: (a) empirismo mitigado: nossas ideias nascem em parte dos sentidos e em parte da conjectura da alma; (b) cr√≠tica a Arist√≥teles e Tom√°s de Aquino sem explicitar sua inspira√ß√£o em Locke; (c) aconselha por fim √† cultura das palavras e dedicar-se √† cultura das coisas; (d) mais interessado nos costumes e necessidades que em ess√™ncias e subst√Ęncias; (e) tem ares de modernidade mas preserva vis√£o ib√©rica de mundo, defendendo a f√© e preservando a teoria do silogismo (c√©tico-ecl√©tico).


espiritualismo eclético no Brasil

Espiritualismo ecl√©tico ou ecletismo espiritualista foi a 1¬™ corrente filos√≥fica estruturada com rigor no Brasil, entre 1840-1880. Proposta: (a) conciliar os valores tradicionais com anseios de modernidade, (b) adotar o liberalismo pol√≠tico e econ√īmico e (c) manter a unidade nacional; (d) dar fundamento √† pr√°tica da representa√ß√£o pol√≠tica; (e) superar a ant√≠tese da escol√°stica portuguesa entre o cristianismo e as ci√™ncias e, assim, solucionar a problem√°tica do homem.

Contexto: quer responder a dois problemas deixados pelo empirismo mitigado: consciência e liberdade.

Inspiradores:
    1. ‚ÄĒ Victor Cousin (†1867): oscila entre tr√™s aspectos contradit√≥rios: (a) ecletismo como m√©todo (historicismo), (b) m√©todo psicol√≥gico elevado √† condi√ß√£o de fundamento √ļltimo da filosofia; (c) espiritualismo.

    2. ‚ÄĒ Maine de Biran (†1824): maior influ√™ncia; ideia: superar o sensualismo e o racionalismo, buscando um meio termo, o intuicionismo
Etapas no Brasil: 3 ciclos:
    1. ‚ÄĒ de forma√ß√£o, 1833-1848; Frei Jos√© do Esp√≠rito Santo, em Salvador, 1830, foi o 1¬ļ a divulgar a doutrina de Cousin. Primeiras obras em 1840.

    2. ‚ÄĒ do apogeu, 1850-1870. Ciclo da filosofia oficial, porque Pedro II a tornou obrigat√≥ria nos liceus. Nessa fase o problema do conhecimento cede lugar √† quest√£o da moral.

    3. ‚ÄĒ do decl√≠nio ou supera√ß√£o (d√©cada de 1880): surgimento da Escola do Recife e do positivismo.
Filósofos que se destacaram:
    1. ‚ÄĒ Ferreira Fran√ßa (†1857). Tratou do tema da introspec√ß√£o com rigor da observa√ß√£o emp√≠rica e constatou a exist√™ncia do esp√≠rito; buscou uma filosofia para exerc√≠cio da liberdade pol√≠tica.

    2. ‚ÄĒ Gon√ßalves de Magalh√£es (†1882), (Visconde do Araguaia). Busca construir a ideia de na√ß√£o; explica o homem em termos puramente espiritualistas, negando os valores do mundo corp√≥reo; o universo sens√≠vel s√≥ tem exist√™ncia em Deus (√© pensamento de Deus).

    3. ‚ÄĒ Visconde do Uruguai (Paulino Soares de Sousa) (†1866): dedicou-se ao pensamento pol√≠tico brasileiro, buscando uma estrutura√ß√£o l√≥gica para o Imp√©rio e respostas para a quest√£o de como tornar govern√°vel o Brasil.
Crise e decadência: a partir de 1880 a corrente eclética se desvaneceu diante da ascensão de três novas correntes: o darwinismo, o determinismo monista e o positivismo.


o positivismo

a escola positivista

Doutrina de Auguste Comte: doutrina que se pretende cient√≠fica e altru√≠sta; objetivo: uma cultura √ļnica capaz de unir Oriente e Ocidente, gerando progresso para a humanidade e bem-estar social; m√©todo: f√≠sica social.

o contexto do positivismo
o contexto do Positivismo: surge da Revolu√ß√£o Industrial, da Independ√™ncia dos EUA (1776), da Revolu√ß√£o Francesa (1779), dos ideais de liberdade do in√≠cio do S√©culo XX. Tais ideais se fundavam em duas correntes antag√īnicas:
    (a) liberalismo, um tipo de racionalismo abstrato, que defendia a liberdade individual e da natureza humana como base da lei natural; não se conciliava nem com o empirismo (que valorizava a experiência dos sentidos) nem com o materialismo que via na matéria e em suas leis a existência;

    (b) e cientificismo, que queria explicar todos os fatos e valores por uma √ļnica lei natural.
O positivismo quer, assim, superar as duas correntes pol√≠ticas de seu tempo: 1. ‚ÄĒ a conservadora, que dizia que os problemas sociais derivavam da destrui√ß√£o da ordem anterior (a medieval), e 2. ‚ÄĒ os novos iluministas, que diziam que os problemas vinham de a ordem anterior n√£o ter sido completamente destru√≠da, e por isso a revolu√ß√£o devia continuar.

ideias principais do positivismo
As ideias principais do positivismo foram (vide adiante, em separado, as ideias políticas do positivismo):
    1. ‚ÄĒ atribui as explica√ß√Ķes a fatores humanos (contra a metaf√≠sica, a teologia e ‚Äúo primado da raz√£o‚ÄĚ (?));

    2. ‚ÄĒ abandona a busca pelas causas e privilegia a determina√ß√£o de leis: deixam de tentar explicar os ‚Äúporqu√™s‚ÄĚ e buscam explica√ß√Ķes de fen√īmenos pr√°ticos da vida cotidiana, os ‚Äúcomos‚ÄĚ; prop√Ķe desprezar o inacess√≠vel e investigar s√≥ o real, certo, indubit√°vel;

    3. ‚ÄĒ nova vis√£o dos problemas sociais para coibir os abusos do individualismo, substituindo a metaf√≠sica pela autoridade e ordem p√ļblica;

    4. ‚ÄĒ prop√Ķe um dogmatismo f√≠sico e um ceticismo metaf√≠sico: √© uma filosofia determinista que considera anti-cient√≠fico o estudo das causas finais;

    5. ‚ÄĒ divis√£o e classifica√ß√£o das ci√™ncias da mais simples e abstrata (matem√°tica) √† mais complexa e concreta, a f√≠sica social (sociologia);

    6. ‚ÄĒ tem base na premissa de haver uma limitada interconex√£o entre diferentes grupos de fen√īmenos e cada ci√™ncia se dedida a um s√≥ grupo, de forma que os fen√īmenos s√£o irredut√≠veis uns aos outros; a realidade √© formada de fen√īmenos at√īmicos, partes isoladas que se relacionam, e n√£o √© poss√≠vel apreender rela√ß√Ķes absolutas: ‚Äútudo √© relativo, e isso √© a √ļnica coisa absoluta‚ÄĚ (Comte).

    7. ‚ÄĒ a sociedade positiva √© um organismo harmonioso feito de partes integradas conforme o modelo mecanicista cartesiano; portanto a pol√≠tica tamb√©m ter√° por base o m√©todo cient√≠fico;
uma suma do positivismo
Em suma o positivismo é,
    1. ‚ÄĒ antes de tudo, um m√©todo geral universalizante, que engloba todos os outros m√©todos particulares (dedu√ß√£o, indu√ß√£o, observa√ß√£o, experimenta√ß√£o, a analogia e a filia√ß√£o hist√≥rica);

    2. ‚ÄĒ uma busca da unidade do conhecimento com expurgo da subjetividade na constru√ß√£o do conhecimento;

    3. ‚ÄĒ um determinismo organicista porque tudo est√° determinado e √© relativo √†s inter-rela√ß√Ķes entre fen√īmenos, de modo que o conhecimento √© limitado;
lei dos três estados
Quanto ao desenvolvimento do espírito humano, se dá pela lei dos três estados (ideia originalmente de Saint-Simon):
    (a) teol√≥gico, em que a imagina√ß√£o tem grande relev√Ęncia na observa√ß√£o dos fen√īmenos; fundamenta a vida moral na cren√ßa na autoridade de poderes imut√°veis que se expressam na pol√≠tica mon√°rquica e no militarismo; divide-se em fetichista, polite√≠sta e monote√≠sta;

    (b) metaf√≠sico (abstrato): explica√ß√Ķes substituem deuses por for√ßas f√≠sicas, qu√≠micas e vitais, reunidas na for√ßa da natureza que equivale ao deus √ļnico do estado teol√≥gico monote√≠sta; substitui o concrto pelo abstrato, a imagina√ß√£o pela argumenta√ß√£o e destr√≥i a ideia de que o sobrenatural subordinava o homem √† natureza; sociedade estruturada por contrato, substitui a pol√≠tica fundada no rei pela soberania do povo;

    (c) positivo: imagina√ß√£o e argumenta√ß√£o se subordinam √† observa√ß√£o; ci√™ncia factual torna-se √ļnico crit√©rio da verdade; leis deve ser entendidas como rela√ß√Ķes constantes entre os fen√īmenos psicol√≥gicos (?);
Tamb√©m a evolu√ß√£o do homem, ao longo de sua educa√ß√£o, passa pelos mesmos tr√™s est√°gios: a inf√Ęncia est√° no est√°gio teol√≥gico, atribuindo ao sobrenatural os fatos; os estudos cient√≠ficos, em vez dos liter√°rios, √© que promoveriam a emancipa√ß√£o.

ideias políticas do positivismo
Quanto √†s ideias pol√≠ticas do positivismo e √† sociedade na vis√£o positivista, v√™-se que a finalidade √ļltima do positivismo √© pol√≠tica:
    (a) também a sociedade humana e submete às leis da natureza, sendo previsível e governável segundo modelos copiados da biologia;

    (b) a sociedade é um organismo heterogêneo cujas partes devem trabalhar de modo solidário de forma a superar a individualidade do liberalismo;

    (c) a sociedade apresenta dois movimentos caracter√≠sticos, (c1) um que leva √† evolu√ß√£o, conforme uma lei universal, da forma mais simples para a mais complexa, e (c2) outro a busca ajustar todos os indiv√≠duos a condi√ß√Ķes estabelecidas, conforme anseios da maioria (for√ßas de progresso e de ordem);

    (d) a sociologia deve estruturar n√ļcleos permanentes como p√°tria, propriedade, fam√≠lia, trabalho e religi√£o, e assim ser√° o ponto inicial da moral, da pol√≠tica e da religi√£o positivas;

    (e) o sistema positivista se diz avesso a qualquer tipo de viol√™ncia para obter a transforma√ß√£o social, e quer se basear na persuas√£o; devem ser contidos os conflitos, revoltas ou movimentos reivindicat√≥rios, porque p√Ķem em risco a ordem e coes√£o;

    (f) dividiu, assim, o estudo da estrutura social em estudo da ordem social (est√°tica social) e o da evolu√ß√£o social (progresso), que denominou din√Ęmica social; a ordem (a est√°tica) tem prefer√™ncia sobre o progresso (a din√Ęmica): sem ordem n√£o h√° progresso porque o progresso √© o desenvolvimento da pr√≥pria ordem;

    (g) prop√īs o pagamento de um subs√≠dio estatal a cada trabalhador, composto de parte fixa igual para todos, e uma parte vari√°vel conforme a produtividade;

    (h) a educação positiva deve incorporar o proletariado à ordem social dando-lhe instrução científica básica; a classe trabalhadora será o fundamento da ordem moral porque é superior às outras pelo sentimento moral, baseado em suas características de afeto e submissão;

    (i) o Estado tem uma fun√ß√£o coordenadora totalizante, √© intervencionista, imp√Ķe-se de forma coercitiva, como uma ditadura, extinguindo os √≥rg√£os legislativos;

    (j) não existe nenhum direito individual além do de cumprir o dever social; o verdadeiro caráter da educação moral depende da submissão do indivíduo à sociedade;
a moral positivista
S√£o postulados da moral positivista:
    (a) a finalidade da filosofia é hierarquizar as ciências;

    (b) as a√ß√Ķes humanas n√£o s√£o determinadas pela intelig√™ncia mas pelo que se sente: o sentimento leva √† a√ß√£o, a raz√£o apenas a controla;

    (c) a moralidade deve despertar no povo o sentimento de obediência; os pobres e ricos devem aprender a ser felizes na sua condição social;

    (d) o ser humano é um ser total; a individualidade não existe: o indivíduo só existe como membro dos grupos (família, pátria, humanidade); matar a individualidade fará surgir a fraternidade universal;

    (e) é função da escola ensinar ao aluno como o mundo funciona pela ordem, e inculcar a ordem por meio da disciplina, obediência e hierarquia, eliminando o egoísmo;

a religi√£o da humanidade
Numa fase posterior do seu tamb√©m Comte criou (ou converteu o positivismo em) a ‚Äúreligi√£o da humanidade‚ÄĚ, o que dividiu seus seguidores em duas correntes: (a) ortodoxos, liderados por Pierre Lafitte, que seguiram a vertente religiosa (no Brasil, liderados por Miguel Lemos e Teixeira Mendes), e (b) heterodoxos, liderados por √Čmile Litr√©, que ficaram fi√©is ao ‚Äúprimeiro‚ÄĚ positivismo, cient√≠fico e filos√≥fico (no Brasil, liderados por Lu√≠s Pereira Barreto, Tobias Barreto e Silvio Romero, eram chamados ‚Äúdissidentes‚ÄĚ).

a deusa do positivismo
para Comte, o que caracteriza a Religi√£o n√£o s√£o os deuses ou o sobrenatural, mas a busca pela unidade da moral humana; a religi√£o positiva, ‚Äú√ļnica verdadeira‚ÄĚ, √© racional e cient√≠fica, n√£o admite mist√©rios, revela√ß√Ķes, vontade sobrenatural; o √ļnico ser supremo √© a pr√≥pria humanidade personificada (a deusa do positivismo).

A humanidade, nesse conceito, √© o conjunto convergente de todas as gera√ß√Ķes passadas, presentes e futuras (a humanidade que trabalhou, a humanidade que trabalha e a humanidade que trabalhar√°); a subjetividade √© adquirida trabalhando.

A religi√£o positivista tinha dois cultos, o √† humanidade e o √†s mulheres (‚Äúanjos da guarda‚ÄĚ).

O dogma essencial da religi√£o positivista √©: h√° coisas que o homem pode conhecer e outras que jamais conhecer√° (os fen√īmenos s√£o conhecidos mas suas ess√™ncias (causas √≠ntimas) n√£o).

o positivismo no Brasil

segunda p√°tria
O Brasil foi a segunda pátria do positivismo. A primeira manifestação positivista ocorreu em 1844 (ou 1857, ou 1865, informação contraditória) quando o dr. Justiniano da Silva Gomes defendeu o positivismo na sua tese na Faculdade de Medicina da Bahia.

Em 1865 Francisco Antonio Brand√£o Jr., em seu livro ‚ÄúA escravatura no Brasil‚ÄĚ, apresentou o positivismo √† sociedade brasileira, ao abordar a quest√£o da escravatura, repelida pelas ideias de Comte.

A vertente cient√≠fica do positivismo (veja mais aqui) penetrou na Escola Militar, no Col√©gio Pedro II, na Escola da Marinha, na Escola de Medicina e na Escola Polit√©cnica. Apesar do naturalismo e do evolucismo, o positivismo tornou-se uma rea√ß√£o filos√≥fica √† doutrina cat√≥lica, √ļnica atitude intelectual que at√© ent√£o havia no pa√≠s.

as ideias do positivismo brasileiro
Os positivistas brasileiros se posicionaram:
    (a) contra a escravid√£o

    (b) a favor do cientificismo

    (c) adeptos do progresso material e das artes mec√Ęnicas

    (d) contra a monarquia

    (e) contra o liberalismo;
O positivismo brasileiro cresceu entre os militares, gra√ßas principalmente a Benjamin Constant (†1891), professor de matem√°tica na Escola Militar. Propunha a valoriza√ß√£o do ensino como forma de alcan√ßar o Estado sociocr√°tico.

consequências do positivismo no Brasil
Sentem-se at√© hoje reflexos do positivismo da educa√ß√£o do Brasil. como o positivismo valoriza o m√©todo empirista e quantitativo, por meio da experi√™ncia sens√≠vel como fonte principal do conhecimento, e considera as ci√™ncias emp√≠rico-formais como modelos para as outras ci√™ncias, por sua ‚Äúcientificidade‚ÄĚ, isso se impregnou na mentalidade pedag√≥gica brasileira at√© o presente.


a escola do recife

Até o fim do séc. XIX não havia novidade alguma na filosofia brasileira, a não ser o inconformismo (a intenção de combater a escolástica). A Escola do Recife recebeu influência de Kant (negação da metafísica), de Comte (naturalismo-materialista) e de Darwin (evolucionismo). Seus principais integrantes foram Tobias Barreto e Silvio Romero.

Tobias Barreto
Tobias Barreto (†1889) tem um trabalho que se divide em duas fases: 1¬™, cr√≠tica ao espiritualismo e 2¬™, um esfor√ßo para reestruturar a metaf√≠sica, entendida como a metaf√≠sica dogm√°tica; defendeu, todavia, uma ‚Äúmetaf√≠sica reservada e consciente‚ÄĚ que sempre existir√°, ‚Äúse n√£o como ci√™ncia, como uma disposi√ß√£o natural e inerradic√°vel do esp√≠rito‚ÄĚ. Tal metaf√≠sica tem sua g√™nese na quest√£o ‚Äúo que eu posso saber?‚ÄĚ.

Silvio Romero
Silvio Romero (†1914), disc√≠pulo de Barreto, proclamou o fim da metaf√≠sica. Sua obra principal, ‚ÄúFilosofia no Brasil‚ÄĚ, critica dez autores brasileiros, mas √© mais uma rea√ß√£o que uma an√°lise cr√≠tica.

o auge da Escola do Recife
A Escola caracterizou-se pela pol√™mica, e por isso mereceu a cr√≠tica de exercer uma ‚Äúesp√©cie de socratismo tosco e paradoxal (...) com emperrada mai√™utica e deformada ironia‚ÄĚ (Crippa), sem coes√£o doutrin√°ria e proposta al√©m do mero inconformismo. Nenhum dos l√≠deres da Escola cursara filosofia, eram autodidatas. Tinham por caracter√≠stica um pensamento radical e, pela pol√™mica, buscavam solu√ß√£o para os problemas da filosofia brasileira.

traços característicos da Escola
O grupo tinha em comum as ideias de evolucionismo, naturalismo e monismo, além de um desejo de atuação social.

declínio da Escola
Os seguidores de Romero e Barreto n√£o desenvolveram a filosofia no √Ęmbito epistemol√≥gico, continuaram a afirmar o car√°ter sint√©tico da filosofia, como s√≠ntese da ci√™ncia.


marxismo no Brasil

O pensamento marxista no Brasil serviu de inspiração para os movimentos políticos de natureza socialista, e se desenvolveu por três abordagens:
    (a) marxistas, com posicionamento radical a pretensamente fiel ao pensamento original de Marx;

    (b) marxianos, cuja característica é o revisionismo;

    (c) marxólogos, que são analistas profissionais que usam o instrumental da leitura marxista.
Em consequ√™ncia, ‚Äúinexiste no Brasil uma tradi√ß√£o de estudos marxistas, porquanto a subestima√ß√£o da teoria √© uma decorr√™ncia do sectarismo e do praticismo dos seguidores do marxismo no Brasil‚ÄĚ (Vita).

O primeiro marxista brasileiro foi o médico Silvério Fontes, de Santos, pai do poeta Martins Fontes, que abandonou o positivismo por uma junção das leituras positivistas e marxistas. Houve no Brasil uma movimentação de positivistas para o marxismo, com uma inevitável confusão de propostas entre as duas escolas, mesmo porque Marx no fim da carreira assumiu uma postura darwinista. Mas os positivistas brasileiros que migraram para o marxismo ignoravam e repudiavam o Hegel implícito em Marx [4].

Em 1922 Altrojildo Pereira funda o Partido Comunista Brasileiro.

Caio Prado J√ļnior
Caio Prado J√ļnior quis transportar a teoria marxista com finalidade pr√°tica para a hist√≥ria. Em ‚ÄúEvolu√ß√£o pol√≠tica do Brasil‚ÄĚ, de 1933, as classes emergem pela primeira vez como categoria anal√≠tica nos horizontes de explica√ß√£o da realidade social brasileira. Teve grande papel na sistematiza√ß√£o do marxismo no Brasil. Cria num socialismo capaz de revolucionar o Brasil; para ele o que parecia ser a ant√≠tese do capitalismo era uma consequ√™ncia do sistema capitalista, isto √©, ‚Äúo socialismo √© a dire√ß√£o na qual marcha o capitalismo‚ÄĚ. N√£o acreditava num conflito armado como solu√ß√£o, mas num processo hist√≥rico de transforma√ß√Ķes econ√īmicas, sociais e pol√≠ticas, que proporcionariam a equidade entre as classes sociais.

√Ālvaro Borges Vieira Pinto
√Ālvaro Borges Vieira Pinto (‚ÄúConsci√™ncia e realidade nacional‚ÄĚ) pertencia √† linha moderada, diferente da postura ortodoxa de Caio Prado. Dizia que a grande Revolu√ß√£o ocorrer√° quando a aliena√ß√£o cultural do pa√≠s for superada, de modo que √© preciso que as universidades tenham finalidade pol√≠tica: a classe opressora se mant√©m porque a divis√£o cultural entre os intelectuais e os sem instru√ß√£o √© preservada. A revolu√ß√£o, todavia, era urgente. Propunha algumas exig√™ncias pr√°ticas: (a) cogoverno, para democratizar as universidades, (b) supress√£o do vestibular, (c) populariza√ß√£o das universidades, (d) supress√£o da vitaliciedade das c√°tedras. Desenvolveu as ideias de ideologia e consci√™ncia numa teoria de supera√ß√£o do subdesenvolvimento nacional: uma ideologia do desenvolvimento com base na dial√©tica entre consci√™ncia e realidade: para mudar a realidade √© necess√°rio elevar o n√≠vel de consci√™ncia das camadas sociais. diferen√ßa entre consci√™ncia ing√™nua e consci√™ncia cr√≠tica: (a) √© uma forma inaut√™ntica que desencadeia a condi√ß√£o de aliena√ß√£o, n√£o est√° ciente do contexto em que vive, n√£o est√° vinculada aos fatos, s√≥ √†s ideias, que considera princ√≠pios absolutos; (b) √© produto da historicidade dos conte√ļdos cr√≠ticos do passado, certa de estar refletindo em si um mundo existente fora dela. para retirar as armadilhas que levam √† consci√™ncia ing√™nua necess√°rio desconstruir as ideologias que favorecem o sistema de classes.

Leandro Konder
Leandro Konder foi um grandes cr√≠ticos marxistas da realidade brasileira. Em 1965, em ‚ÄúMarxismo e aliena√ß√£o‚ÄĚ, diz que Marx encontrou na aliena√ß√£o econ√īmica a raiz do fen√īmeno global da aliena√ß√£o. A obra de arte pode ter v√°rios graus de influ√™ncia pol√≠tica. Com a Revolu√ß√£o de 1964 a persegui√ß√£o for√ßou os marxistas a abdicar do discurso aberto e optar por um esquema de den√ļncia alternativa, voltando-se para os estudos da Est√©tica.


considera√ß√Ķes finais

As religi√Ķes protestantes, embora crist√£s, incorporararam o antropocentrismo, reconhecendo o homem como ser ligado a Deus mas com autonomia e digno da realiza√ß√£o material na terra.

O trabalho dos jesuítas ainda se reflete no currículo escolar brasileiro, no formalismo que enfatiza a leitura, a escrita e o domínio das contas.

Também os ideais positivistas persistem na educação tecnicista, que tornou a sociedade brasileira cientificista.




Notas

[1] Isso não parece indicar que também o fundamento da filosofia não é objeto alcançável pela filosofia, e deveria ser objeto de estudo de algo maior, externo? Como no teorema de Godel, um sistema só pode ser explicado de fora, por outro sistema?

[2] Nessa parte, informa√ß√Ķes de fmon e J2011d.

[3] H√° uma distin√ß√£o complicada entre ‚Äúparecer‚ÄĚ e ‚Äúfazer um ju√≠zo‚ÄĚ.

[4] ‚ÄúMarx assumiu de Hegel n√£o s√≥ a dial√©tica, mas tamb√©m o sentido hist√≥rico e o car√°ter totalit√°rio de seu sistema‚ÄĚ (Zilles).